Matéria · maio de 2026 · 6 min de leitura
Aliança do Pacífico perde força, Brasil mantém posição
O excesso de capacidade após o pico do Ano Novo Lunar finalmente ajusta preços na rota da Costa Oeste da América do Sul e na Península Ibérica; Santos segue como o único porto com demanda firme.
Por Equipe de cotação da SINO Shipping
China → Brasil, marítimo 40GP, variação mensal
Único aumento entre as nove rotas LATAM — congestionamento em Santos e investimentos chineses no setor automotivo mantêm a rota do Atlântico valorizada enquanto a Aliança do Pacífico perde força.
Inteligência do setor · via EAA Network (membro do conselho)
A CMA CGM iniciou serviço entre Sul da China e Europa a US$ 2.150 por 40HQ via Suez, com trânsito de cerca de 27 dias.
O dado serve de referência direta para a entrada ibérica: China → Espanha na cotação SINO está entre US$ 2.300–2.800 — alinhado ao valor da rota via Suez dos armadores, por isso a queda de -19,03% em maio indica retorno à média, não ruptura estrutural.
O SCFI Shanghai-US West Coast atingiu US$ 2.722/FEU em maio, maior nível desde junho de 2025.
A pressão no Transpacífico para os EUA contrasta com o ajuste da Aliança do Pacífico na América do Sul. Armadores que retiram navios de Callao e Valparaíso encontram demanda para realocação — por isso a saída de capacidade LATAM ocorre de forma ordenada.
A capacidade semanal China-Europa caiu para 241.000 TEU na semana 19, enquanto a Maersk reportou queda de 14% nas tarifas, apesar do crescimento de 9,3% no volume.
A compressão dos fretes em meio ao crescimento do volume foi exatamente o padrão observado no grupo LATAM neste mês — excesso de capacidade encontrando uma demanda estável ou firme. Ibéria e Aliança do Pacífico seguem o modelo europeu, mas com um ciclo de atraso.
Os slots Neopanamax no Panamá atingiram US$ 4M em leilão no meio do mês, reflexo indireto da congestão em Hormuz.
Este é o principal risco de alta para o ajuste da Aliança do Pacífico em maio. Se os custos de trânsito pelo Panamá continuarem elevados, o serviço direto para a Costa Leste dos EUA via canal perde viabilidade econômica, e as rotas de transbordo para a Costa Oeste via Manzanillo e Buenaventura passam por nova precificação. O recuo de -7,35% em México e Colômbia pode se intensificar rapidamente caso um gargalo se propague.
O Porto de Chancay (Peru) confirmou as primeiras escalas regulares de contêineres de longo curso a partir de julho de 2026.
Esse é o contraponto estrutural à fraqueza de Callao em maio. Chancay foi projetado para captar volumes de chamadas diretas de Shanghai e Ningbo, que hoje passam por Manzanillo ou Los Angeles. O reajuste de preços na zona da Aliança do Pacífico que se segue tende a ser turbulento — os primeiros três meses de qualquer novo terminal costumam registrar oscilações acentuadas nos dois sentidos.
Autoridade do Porto de Chancay — divulgação do cronograma operacional ↗
Nos primeiros quatro meses de 2026, a rota da Costa Oeste da América do Sul movimentou mais carga do que o necessário. As companhias marítimas, que haviam ampliado a capacidade antes do pico do Ano Novo Lunar, mantiveram os navios operando até o segundo trimestre, apostando que a demanda por nearshoring absorveria o excesso. Maio é a primeira edição em que isso não aconteceu. México, Chile, Peru e Colômbia devolveram cerca de 7,35% nas tarifas marítimas de 40GP em relação ao mês anterior — um grupo que indica claramente que a queda foi causada pelo excesso de oferta, e não pela demanda.
O mecanismo é simples. O Ano Novo Lunar esvaziou o fluxo de importação em fevereiro. Os armadores mantiveram a capacidade em março e abril, esperando que o ciclo de reposição pós-pico voltasse a encher os porões. No período de negociação de maio, isso não aconteceu — pelo menos não nos níveis de frete necessários para manter os navios excedentes em operação. O reajuste do grupo é a saída ordenada desse excesso de carga.
01
A reversão à média era inevitável
O Equador registrou uma queda ainda maior do que outros países da região, com recuo de 20,25% no frete marítimo para 40GP — a maior variação individual entre as rotas da América Latina nesta edição. Dois fatores específicos intensificaram a tendência de baixa. A janela de exportação de bananas em Guayaquil ficou mais curta com o fim da safra tardia, reduzindo a demanda por contêineres refrigerados. Além disso, exportadores chineses anteciparam embarques de insumos para fábricas de montagem em Quito no primeiro trimestre, o que deixou o ciclo de pedidos de maio abaixo do padrão sazonal esperado.
China → Equador, marítimo 40GP, variação mensal
o principal movimento de queda no grupo LATAM — a baixa da temporada de bananas em Guayaquil e a antecipação dos pedidos do primeiro trimestre se somam ao ajuste geral de capacidade após o Ano Novo Lunar.
China → Equador · marítimo 40GP · mediana 12 meses
-20,3% MoM
02
Iberia recua com a demanda europeia
O acesso ibérico apresentou uma dinâmica semelhante, mas com fundamentos distintos. Na Espanha, a rota marítima 40GP registrou queda de 19,03%, enquanto em Portugal o recuo foi de 6,06%, refletindo o fim do pico de importação europeu pós-Páscoa. Os volumes de transbordo em Algeciras e Valencia — que vinham operando no limite superior do padrão durante o primeiro trimestre para abastecer o ciclo de varejo da primavera — voltaram ao patamar habitual. Sines, menos impactado pela dinâmica de transbordo e mais ligado às importações diretas portuguesas, mostrou maior resistência. A diferença entre os dois portos corresponde, em linhas gerais, à diferença entre a reprecificação impulsionada pelo transbordo e aquela orientada pelo mercado final.
China → spain · portugal · marítimo 40GP · mediana 12 meses
- spain
- portugal
A disciplina de capacidade dos armadores na rota China-Europa — a capacidade semanal caiu para 241.000 TEU em meados do mês, segundo acompanhamento da EAA — evitou uma queda mais acentuada na Ibéria. A rota via Suez está estável em cerca de 27 dias, permitindo aos armadores visibilidade sobre custos e decisão de retirar capacidade, em vez de buscar volume abaixo desse patamar. Maio é o primeiro mês em dezoito em que essa disciplina aparece claramente nos números ibéricos.
03
Brasil fora do ciclo
O Brasil destoou da zona latino-americana. O frete marítimo 40GP teve alta de 8,7% em relação ao mês anterior, sendo o único aumento entre as nove rotas monitoradas na região. Dois fatores estruturais sustentam a rota. O porto de Santos está operando com tempos de espera que a autoridade portuária considera insustentáveis há três meses — e esses tempos de espera elevados estabelecem um piso para o valor do frete, já que nenhuma armadora quer alocar mais capacidade em uma fila. Além disso, o volume de pedidos de importação segue forte: BYD, Great Wall e Chery ampliaram a capacidade de montagem no estado de São Paulo ao longo do primeiro trimestre, impulsionando a entrada de componentes e ferramentas.
A combinação representa o cenário clássico para um movimento fora do ciclo. A demanda é estrutural — investimentos automotivos não se ajustam mês a mês. A oferta está limitada — Santos não consegue absorver mais capacidade sem antes reduzir o tempo de espera. Por isso, o resultado de maio é +8,7%, enquanto todas as demais rotas LATAM registram queda.
04
O que acompanhar no próximo mês
- Chancay (Peru) terá as primeiras escalas de longo curso programadas em julho — a expectativa é que o grupo Pacific Alliance reprecifique, já que Callao perderá participação de escalas diretas para um megaporto projetado para capturá-las.
- A temporada de exportação do agronegócio brasileiro começa em junho; a congestão em Santos pode se agravar no lado das importações se os tempos de espera nos berços não voltarem ao normal — o +8,7% pode se prolongar.
- Ciclo de importação de verão ibérico — Espanha e Portugal devem encontrar um piso no final de junho, com a chegada de pedidos antecipados para o período de volta às aulas em Algeciras e Sines.
- Preços dos slots Neopanamax no Panamá — qualquer resultado de leilão acima de US$ 4M de forma consistente forçaria um redirecionamento do serviço US East Coast via Manzanillo e Buenaventura, comprimindo os números do México e Colômbia.